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Os democratas da extrema direita

Milei ampliou vigilância em massa dos argentinos, diz Anistia Internacional

Por João Teixeira de Lima·24 de agosto de 2026·4 min de leitura

Por Sandra Cohen

Especializada em temas internacionais, foi repórter, correspondente e editora de Mundo em 'O Globo'

Relatório documenta como o governo disseminou a coleta de informações e mecanismos de monitoramento de cidadãos, criando efeito inibidor em protestos e na liberdade de expressão. g1

24/08/2026 07h44 Atualizado há 29 minutos

O presidente da Argentina, Javier Milei, discursa durante uma cerimônia que marca o 34º aniversário do atentado à embaixada de Israel em Buenos Aires, que matou 29 pessoas e feriu 200, na Praça da Embaixada de Israel, em Buenos Aires. — Foto: JUAN MABROMATA / AFP O presidente da Argentina, Javier Milei, discursa durante uma cerimônia que marca o 34º aniversário do atentado à embaixada de Israel em Buenos Aires, que matou 29 pessoas e feriu 200, na Praça da Embaixada de Israel, em Buenos Aires. — Foto: JUAN MABROMATA / AFP

Em seus dois primeiros anos, o governo de Javier Milei ampliou as capacidades de vigilância em massa na Argentina, criando um efeito inibidor sobre os direitos à privacidade, à liberdade de expressão e à realização de protestos pacíficos.

Um relatório da Anistia Internacional documenta como o governo incrementou, por meio de reformas institucionais, a coleta de informações e seus mecanismos de monitoramento em massa dos argentinos.

De acordo com a entidade de direitos humanos, o governo investiu, entre 2024 e 2025, pelo menos US$ 1,2 milhão em novas tecnologias, como rastreamento de mídias sociais, reconhecimento facial e equipamentos de vigilância aérea - projetadas para coletar, verificar e visualizar grandes volumes de dados de mídias sociais, sites, dark web e outros bancos de dados públicos.

Com o título de "Estado de Vigilância: A Expansão do Uso de Tecnologias de Vigilância em Massa pelo Governo da Argentina", o relatório demonstra que estas aquisições incluem 69 drones e 11 estações de controle terrestre com recursos de rastreamento automatizado, câmeras térmicas e transmissão de imagens em tempo real.

Somente no ano passado, 300 protestos foram registrados no país, num ambiente de insatisfação devido basicamente aos cortes nos gastos públicos, ao endividamento e às reformas trabalhistas.

Para a diretora-adjunta da Anistia Internacional Argentina, Paola Garcia Rey, o uso generalizado de ferramentas de vigilância tem efeitos devastadores e forma uma rede de controle estatal que busca desencorajar protestos e limitar vozes dissidentes.

“Quando as autoridades buscam se esquivar do escrutínio público, aqueles que questionam ou exigem respostas podem se tornar alvos de diversas formas de vigilância, controle e repressão, aprofundando as práticas autoritárias", afirma. Agora no g1 Agora no g1

Para elaborar o relatório de 64 páginas, a Anistia Internacional ouviu 21 pessoas, entre jornalistas, ativistas e aposentados, e mergulhou na análise de documentos de compra das tecnologias de vigilância.

O pesquisador e consultor em Inteligência Artificial e Direitos Humanos da organização, Matt Mahmoudi, observa que a Argentina não é um caso isolado:

“Em todo o mundo, Estados que implementam práticas autoritárias estão ampliando o uso de tecnologias de vigilância, que se tornaram parte integrante da infraestrutura de controle estatal contra defensores de direitos humanos, jovens, imigrantes, grupos marginalizados e deslocados e dissidentes. Muitas vezes, isso é acompanhado por falta de supervisão, transparência e responsabilização”. Decretos e medidas ministeriais permitiram a expansão da vigilância baseada em Inteligência Artificial no país. Em julho de 2024, a então ministra da Segurança, Patricia Bullrich, criou a Unidade de Inteligência Artificial Aplicada à Segurança, autorizada a patrulhar mídias sociais abertas, aplicativos, sites e a dark web, e a permitir o reconhecimento facial em tempo real por meio de imagens de câmeras de segurança.

A Anistia Internacional cita a compra, em outubro do ano passado, de uma licença de reconhecimento facial da Clearview AI, que conta com um banco de dados com mais de 70 bilhões de imagens faciais.

A empresa já foi multada na França, Itália, Grécia e Holanda por práticas irregulares de uso de dados, mas o Ministério da Segurança afirma que a Polícia Federal usa o reconhecimento facial apenas em investigações judiciais em andamento.

Em seu documento, a Anistia recorre ao termo tecnoautoritarismo para associar o uso da tecnologia ao controle governamental e recomenda à Argentina a proibição do reconhecimento biométrico remoto para a vigilância em massa de seus cidadãos.

As entrevistas incluídas no relatório dão conta que a intimidação se traduz em moderação do discurso, participação reduzida em protestos e autocensura nas redes sociais. Revelam que o monitoramento sistemático dos argentinos intimida e muda comportamentos, mas, ao que tudo indica, veio para ficar.

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