Uma história de prisão, justiça e esperança - em capítulos

Após a visita do vereador as luzes foram apagadas e o silêncio se fez presente como se fosse a noite “que o mundo parou”. Permaneci no corró, que na gíria policial e carcerária, corró é a cela provisória localizada dentro de delegacias. É o espaço onde os suspeitos presos em flagrante ficam detidos temporariamente antes de serem ouvidos e transferidos para um Centro de Detenção Provisória (CDP) ou presídio.
Passadas 1, 2, 3 ou 4 horas depois (não me lembro, porque durou uma eternidade), escutei um barulho de pessoas conversando e o tilintar de ferro, dois homens se aproximaram do corró e um deles que trazia correntes mandou que eu fosse para o fundo do corró, abriu a grade e mandou que eu estendesse as mãos, nesse momento lhe perguntei, você vai me algemar? E ele respondeu sim senhor... me algemou braços e pernas, me segurou pelo braço e mandou que me dirigisse para fora da delegacia. Já fora ele disse: “é muito tarde, ninguém vai ver”. Respondi que para mim não fazia nenhuma diferença. Fui colocado na parte traseira (porta malas) da viatura e o motorista pisou fundo, com destino incerto para mim. Em um trecho da estrada observei que estávamos passando pelo distrito de Córrego Rico. Não demorou muito, entramos na cidade de Pradópolis, e poucos minutos depois a viatura parou em frente a um grande portão de ferro que foi aberto por alguém que se encontrava no interior do local. Quando a viatura estacionou, abriram o porta malas e mandaram que eu saísse. Com muita dificuldade por causa das algemas, consegui sair. Fui recebido por um policial que me conhecia e já sabia da minha prisão que me perguntou. “O que aconteceu”? Respondi que era uma história longa. Ele verificou a sacola que eu levava com os medicamentos, e um outro policial me conduziu para a cela onde se encontravam mais 17 presos, num espaço para 6, mas mudava para mais ou para menos de acordo com a quantidade de prisões realizadas entre a noite e o dia na microrregião.
Ao entrar na cela um dos presos me perguntou. “Qual o seu BO mais véio”? Respondi: Peculato. E ele disse que porra é isso. Um preso que estava deitado no chão, falou, roubo de dinheiro público. E alguém balbuciou, oba, temos um rico entre nós. Rapidamente um preso que estava numa cama, que no vocabulário carcerário eles chamam de “Burra”, levantou e me cedeu seu lugar.
Muita conversa girou entre nós os presos, mas a noite foi muito longa. Amanheceu o dia e sem qualquer material de higiene pessoal, um dos presos me ofertou pasta de dentes a qual usei com os dedos como escova. Logo chegou o café da manhã composto de café, pão e leite. Como tenho problema com lactose, tomei café puro com pão. Logo depois a cela foi aberta para o banho de sol que durou cerca de uma hora. Aproximadamente às 11 horas foi servido o almoço (marmitex), contendo feijão, arroz, duas rodelas de tomate, uma folha de alface e um pedaço de carne. Entre 17 e 18 horas a refeição se repetiu, e assim por esses longos 12 dias, às vezes carne de boi ou porco, às vezes frango. (Nada mal).
O movimento no local era intenso, noite e dia, muita gente saindo e entrando na prisão. O que me deixava apavorado, especialmente no período noturno, alguns presos resistiam, desacatavam e ameaçavam os policiais afirmando que pertenciam a essa ou aquela facção, e que o local seria invadido para soltá-los. Uns como eu, outros ficávamos preocupados e não dormíamos, outros diziam que se tratava de fanfarrões querendo aparecer. Mas a dúvida permanecia e a preocupação e o medo eram desesperadores.
Segundo informações, ali era a Cadeia Pública Feminina de Pradópolis, inclusive era pintada de rosa. Em 2015, as presas foram transferidas para outras unidades da região para que o prédio passasse a abrigar temporariamente detentos masculinos de uma cadeia interditada em Jaboticabal. Atualmente funciona como uma unidade de triagem e trânsito para abrigar presos temporários antes de audiências de custódia ou transferência definitiva a presídios da região de Ribeirão Preto.
Eu não passei por audiência de custódia porque a Lei 13.964/2019, amplamente conhecida como Pacote Anticrime, entrou em vigor no dia 23 de janeiro de 2020. Mas a proposta foi originalmente sancionada e publicada do Diário Oficial da União em 24 de dezembro de 2019.
No meu caso, fui condenado ao regime semiaberto, e nessa prisão de Pradópolis em regime fechado, permaneci por 12 longos dias. A cela continha um banheiro sem vaso sanitário, mas um buraco no chão, que na gíria do sistema carcerário é chamado de “boi”, e um chuveiro ligado à rede elétrica na conhecida gambiarra.
Ali havia seis celas, com seis camas/burras cada uma, que são feitas de concreto fixadas na parede em forma beliches, onde são colocados os colchões de espuma com aproximadamente 3 centímetros de espessura. Conquistar o direito de dormir numa cama/burra de alvenaria era um processo que poderia levar meses ou anos. Atualmente os idosos, os gays e os enfermos têm esse direito, e caso, na cela não tenha ninguém nessas condições, os mais antigos independentemente de idade ou condição física usufruem desse “privilégio”. (Normas dos próprios detentos).
Nesses 12 longos dias que passei no regime fechado, recebi apenas a visita do advogado da época que informou que a justiça negou o Habeas Corpus, e a razão de eu ter sido condenado em regime semiaberto, mas me encontrar no fechado, se tratava de um período de segurança. (O famoso RO – Regime de Observação). Entendi, mas não compreendi.
Um detalhe: um policial que me conhecia de Jaboticabal, passou no corredor próximo a cela e me cumprimentou. E eu lhe perguntei: você sabia que eu estava aqui? E ele respondeu: “as rádios da cidade não falam em outra coisa”.
Nesse local as visitas de familiares são terminantemente proibidas, mas eles podem mandar alguns pertences como roupas, higiene pessoal e cigarros, aliás, um produto caro e raro pela alta procura. Mas tudo em pequena quantidade. E foi o que recebi da minha família já no primeiro dia, mas só tive acesso 3 dias depois, enquanto isso usei uma toalha de banho que estava jogada em canto da cela e pedi a Deus para não contrair alguma doença, e graças a Ele nada aconteceu.
No 13º dia fui transferido. Siga a parte 3.



